O dilema do contato visual

Treinar executivos para falar em público é uma atividade que sempre resvala em temas ou assuntos muito vagos, tais como o famoso “contato visual”. Qualquer livro sobre falar em público trará a recomendação para você manter o contato visual com sua plateia. Entretanto, transpor este conselho das páginas de um livro para a prática nem sempre é tão simples.

Há especialistas que, na tentativa de tornar menos vago o conceito, falam em “conexão visual” e não “contato visual”. A diferença seria algo como “ver” e “enxergar”. Na minha opinião, continuamos no terreno do subjetivo, mas vou te explicar o que se fala a respeito e talvez isso seja útil para você.

Você provavelmente já ouviu falar de alguém que estava olhando na direção de um objeto, e quando perguntado sobre os detalhes do objeto, simplesmente não sabia responder. Isto porque ele estava “vendo”, mas não estava “enxergando”. A Neurociência explica, mas não vamos entrar em detalhes hoje.

No caso das apresentações em público, isto pode ser traduzido por expressões como “passar os olhos”, “escanear a plateia”, “olhar em direção a um ponto no fundo da sala” ou coisa que o valha. Ao fazer isso, você olhou em direção ao seu público. Você o viu, mas não consegue dar detalhes do que viu porque simplesmente não o “enxergou”.

É um truque batido e pode funcionar para determinadas pessoas, mas não configura o “contato visual”. Por uma razão simples: a melhor parte do contato visual, ou da conexão visual, não foi aproveitada – o feedback. E aqui avançamos em um campo menos vago da comunicação: a capacidade de perceber as reações da plateia.

Ao treinar um executivo para realizar uma apresentação em público, mais do que orientá-lo a manter o contato visual com o público (como se fosse um robô), devemos ajudá-lo a perceber as reações da plateia. Como consequência, teremos uma experiência mais rica e mais complexa. Então, na sua próxima apresentação, não tente simplesmente olhar para a direção do público. Tente enxergar cada indivíduo e identificar suas reações. Se não conseguir, procure ajuda profissional. Mas nunca abra mão do feedback da plateia.

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[Outros] cinco erros mais comuns de quem fala em público – Parte II

Completando o post anterior, relaciono mais cinco erros que estão entre os mais comuns de quem fala em público. O material foi inspirado no post do consultor Terry Gault, vice-presidente do Henderson Group e preparador de palestrantes desde 1997. Como já disse, segui as ideias principais de Gault, porém acrescentei algumas experiências próprias, visando adequar à realidade dos brasileiros.

6. Não se comprometer

“Ah, vou fazer esta apresentação de qualquer jeito. Falo rapidinho, dou uma enrolada e caio fora”. Isso é mais comum do que se imagina, e o resultado é quase sempre uma catástrofe. Não se comprometer com a apresentação é um tiro no pé, já que a plateia está ali para avaliar o conteúdo, a sua empresa, e a sua performance.

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Sem comprometimento, seleção passou por vexame histórico diante da Alemanha jogando em casa

Se você zela pela sua imagem e tem interesse em construir uma sólida carreira profissional, aproveite cada oportunidade para falar em público! Planeje, prepare-se, ensaie e saia da zona de conforto. Apresentações em público são uma excelente vitrine. Se você estiver comprometido, só sairá ganhando.

7. Ligar o piloto automático

Uma derivação do erro anterior é ligar o automático. O profissional precisa fazer a apresentação, então aproveita algo que ele já fez no passado, conhece o discurso de cor e salteado, dá pequenos ajustes e liga o piloto automático.

Agindo assim você corre dois riscos: aproveitar materiais anteriores pode ser encarado como falta de criatividade ou conteúdo, ou superficialidade (quem viu uma apresentação viu todas).

Há ainda o risco de errar o perfil do público alvo, e direcionar o conteúdo para um público que não tem nada a ver com aquele material.

8. Levar-se muito a sério.

Tentar ser o que você não é não vai ajudá-lo a falar bem em público. Há dezenas de manuais de como falar em público, geralmente traduzidos do inglês, que recomendam abrir a apresentação com uma piada. Isso vale se você sabe contar piadas. Se você não sabe, melhor não arriscar.

Por outro lado, não é preciso subir ao palco com pompa e circunstância. Não leve as coisas tão a sério. Se você está confiante do que tem que falar, ensaiou e tem tudo sob controle, permita-se um sorriso, uma descontração, uma conversa com o público…

9. Elaborar uma tese de doutorado

Sempre oriento meus clientes a numerar os slides. Assim a plateia tem uma noção do avanço da apresentação (ou do tempo que ainda falta). Essa dica acaba servindo também para conter aqueles que se empolgam e querem apresentar 46 slides em 15 minutos.

Se você planejou sua apresentação, sabe que seu discurso está coerente e você se sente confiante para contar uma boa história, não há porque descarregar sobre a plateia uma infinidade de material visual. Nessa hora, menos é mais.

10. Prova dos 100 metros rasos

Como já falei no post anterior, por nervosismo algumas pessoas falam baixo quando vão se apresentar em público. Outras disparam a falar a uma velocidade tão grande que ninguém consegue entender nada…

Escolha suas palavras de maneira inteligente, use a sua cabeça e só então abra a boca. Essa é uma boa dica do Terry Gault, à qual eu acrescento: respire, fale pausadamente e adote um ritmo natural de conversa.

Imagine que os seus ouvintes precisam de tempo para assimilar os tópicos que você está apresentando, principalmente se for uma novidade. Isso, mais uma vez, requer treino e ensaio. Se você acha difícil dosar a velocidade, conte com um profissional experiente para ajudá-lo.